{"id":1670,"date":"2026-03-04T10:58:08","date_gmt":"2026-03-04T13:58:08","guid":{"rendered":"https:\/\/freirers.com.br\/?p=1670"},"modified":"2026-03-04T11:03:18","modified_gmt":"2026-03-04T14:03:18","slug":"empobrecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/freirers.com.br\/?p=1670","title":{"rendered":"Empobrecimento"},"content":{"rendered":"\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-vivid-cyan-blue-color has-alpha-channel-opacity has-vivid-cyan-blue-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma nova forma de empobrecimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um fantasma ronda o ser humano: a diminui\u00e7\u00e3o do vocabul\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Renato De Faria<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fil\u00f3sofo. Doutor em educa\u00e7\u00e3o e mestre em \u00c9tica. Professor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>02\/03\/2026 09:37<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jovens com olhar fixo no celular: um fantasma ronda o ser humano: a diminui\u00e7\u00e3o do vocabul\u00e1riocr\u00e9dito: imagem gerada por intelig\u00eancia artificial\/acervo Estado de Minas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos atravessados pela linguagem. Ao nascer, o corpo natural chora ao se deparar com o mundo. Desde ent\u00e3o, a emiss\u00e3o de sons se transforma em palavras, que s\u00e3o interpretadas \u2013 bem ou mal \u2013 pelos outros que convivem conosco. Nos comunicamos por essa sonoriza\u00e7\u00e3o que, entendida \u2013 ou desentendida \u2013, vai formando um universo no qual nos orientamos em nosso estar-no-mundo. Todas as esp\u00e9cies se comunicam, mas nenhuma delas o faz do jeito humano: pela linguagem simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conceitos s\u00e3o palavras. Palavras s\u00e3o sons. Sons s\u00e3o impulsos que convencionamos usar para nomear coisas, pessoas e sentimentos. Durante muito tempo, acreditou-se que os nomes eram universais, entidades incorp\u00f3reas que descreviam, de forma fiel, a ess\u00eancia das coisas. Por exemplo, a palavra \u201cmesa\u201d definia a ess\u00eancia daquele objeto que utilizamos para apoiar pratos e cadernos. Por\u00e9m, com a filosofia contempor\u00e2nea, sabemos que os conceitos s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es, instrumentos da cria\u00e7\u00e3o humana, uma conven\u00e7\u00e3o social. Poder\u00edamos ter escolhido qualquer outro som para definir quaisquer outros objetos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma quest\u00e3o filos\u00f3fica de primeira grandeza por tr\u00e1s dessa reflex\u00e3o: existem mais coisas ou palavras no mundo? Como toda pergunta, ela luta contra a ansiedade da resposta. Por isso, n\u00e3o tente respond\u00ea-la de imediato. As grandes perguntas nascem com o objetivo de fazer pensar e, muitas vezes, respondemos para tentar aliviar a ang\u00fastia inerente a todo questionamento. \u00c9 preciso se deliciar com a reflex\u00e3o, pois, enquanto fazemos isso, pensamos, e realizamos esse ato por meio das palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a linguagem \u00e9 respons\u00e1vel por enriquecer nosso universo, nos acomodando e nos incomodando, ela tamb\u00e9m pode ser uma boa refer\u00eancia para seu oposto: o empobrecimento humano. N\u00e3o por culpa dela, claro, mas por responsabilidade dos seres falantes, que esquecem seu car\u00e1ter humanizador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudos recentes indicam que a chamada&nbsp;<strong>gera\u00e7\u00e3o Z<\/strong>&nbsp;vive um colapso de vocabul\u00e1rio. Cerca de 40% dos jovens est\u00e3o perdendo habilidades fundamentais de flu\u00eancia comunicativa, como a compet\u00eancia de interpretar textos longos ou sustentar di\u00e1logos com sequ\u00eancia l\u00f3gica, conforme nos aponta o neurocientista Michel Desmurget, autor do livro \u201cA F\u00e1brica de Cretinos Digitais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Sem habilidades simples: Pesquisa afirma que Gera\u00e7\u00e3o Z n\u00e3o consegue nem trocar l\u00e2mpada<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Cansada dos aplicativos de namoro, gera\u00e7\u00e3o Z volta aos encontros presenciais<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, esse dado n\u00e3o aponta apenas para um decl\u00ednio cognitivo, impactando somente a vida escolar. O abandono das palavras tra\u00e7a um horizonte bem mais perigoso: uma lenta ren\u00fancia ao universo humano. Quando desistimos da linguagem, abandonamos n\u00f3s mesmos em um deserto \u00e1rido, uma paisagem de escassez dist\u00f3pica, semelhante \u00e0quelas dos filmes que retratam o fim do mundo. Vemos coisas, destro\u00e7os, escombros e n\u00e3o conseguimos nome\u00e1-los, da\u00ed o sentimento de que estamos perdidos. E pior, ainda podem surgir alguns zumbis, tentando se alimentar de nosso c\u00e9rebro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que vivemos uma nova forma de empobrecimento: a pobreza lingu\u00edstica. Incentivados por dispositivos e aplicativos de cria\u00e7\u00e3o de textos e imagens, vamos abdicando lentamente daquilo que nos humanizou e entregando aos&nbsp;<strong>algoritmos&nbsp;<\/strong>n\u00e3o apenas a liberdade de escolha, mas a criatividade do falar, a import\u00e2ncia do dizer e a beleza de se expressar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A&nbsp;<strong>intelig\u00eancia artificial<\/strong>&nbsp;ocupa, nesse cen\u00e1rio, um lugar amb\u00edguo. Ela \u00e9, ao mesmo tempo, fruto sofisticado da linguagem humana e poss\u00edvel catalisadora de seu empobrecimento. Alimentada por bilh\u00f5es de palavras, aprende padr\u00f5es, imita estilos, recomp\u00f5e sentidos. Contudo, ao oferecer respostas prontas, s\u00ednteses autom\u00e1ticas e textos instant\u00e2neos, pode induzir \u00e0 terceiriza\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o expressivo. Se antes a dificuldade de formular uma frase exigia sil\u00eancio e reflex\u00e3o,&nbsp;<strong>agora basta um comando<\/strong>. Deslocamos para a m\u00e1quina um exerc\u00edcio formativo do esp\u00edrito.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>A intelig\u00eancia artificial \u00e9 a nova bomba at\u00f4mica<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Estudo revela se devemos dizer \u2018Por favor\u2019 e \u2018Obrigado\u2019 para a intelig\u00eancia artificial<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada frase constru\u00edda exige sele\u00e7\u00e3o, hierarquiza\u00e7\u00e3o, ren\u00fancia e inven\u00e7\u00e3o. Ao delegarmos sistematicamente essa tarefa, enfraquecemos a musculatura simb\u00f3lica que sustenta nossa vida comum. A linguagem deixa de ser morada e fica reduzida a um servi\u00e7o. O vocabul\u00e1rio se estreita, as imagens se repetem, os argumentos se simplificam. Pouco a pouco, o mundo tamb\u00e9m se apequena, pois s\u00f3 enxergamos com nitidez aquilo que sabemos nomear<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linguagem n\u00e3o \u00e9 apenas instrumento; ela \u00e9 a possibilidade do pr\u00f3prio humano. Martin Heidegger a define como \u201ccasa do ser\u201d. Se a habitamos de modo apressado, superficial ou delegado, nossa morada se empobrece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso n\u00e3o podemos esquecer de que o uso das palavras \u2013 para o bem ou para o mal, da diplomacia \u00e0 poesia &#8211; sempre decidiu o futuro da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-vivid-cyan-blue-color has-alpha-channel-opacity has-vivid-cyan-blue-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"javascript:history.go(-1)\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-vivid-cyan-blue-color has-alpha-channel-opacity has-vivid-cyan-blue-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma nova forma de empobrecimento Um fantasma ronda o ser humano: a diminui\u00e7\u00e3o do vocabul\u00e1rio Renato De Faria Fil\u00f3sofo. Doutor em educa\u00e7\u00e3o e mestre em \u00c9tica. Professor. 02\/03\/2026 09:37 Jovens com olhar fixo no celular: um fantasma ronda o ser humano: a diminui\u00e7\u00e3o do vocabul\u00e1riocr\u00e9dito: imagem gerada por intelig\u00eancia artificial\/acervo Estado de Minas Somos atravessados [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1670","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-atualidades"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1670"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1676,"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1670\/revisions\/1676"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/freirers.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}